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O que a literatura ensina a quem avalia pessoas.

Os livros que aparecem nos posts do @psi_juridica, com uma leitura psicológica e referências. Os de domínio público têm link para leitura gratuita.

Fernanda Cruz segurando livros de psicologia jurídica
Post de 30/10/2026 · Projeção

Dom Casmurro

Machado de Assis, 1899. Domínio público.

Dom Casmurro é contado por quem acusa. Bento Santiago, já velho e recluso, decide “atar as duas pontas da vida” e escreve a própria história. Tudo o que sabemos de Capitu passa pelo olhar dele. Ela nunca tem a palavra.

É por isso que a pergunta “Capitu traiu?” não tem resposta dentro do livro. O romance não oferece prova, oferece um narrador. E esse narrador lê cada gesto da mulher como confirmação do que já sente: um olhar no velório de Escobar vira confissão, a semelhança do filho com o amigo vira evidência.

A projeção

Na psicanálise, projeção é o mecanismo pelo qual o sujeito atribui ao outro aquilo que não consegue reconhecer em si. Freud, ao tratar do ciúme, descreve uma forma que chama de projetada: o ciumento enxerga no parceiro impulsos que são, antes, seus. Bentinho admira Sancha, a mulher do amigo, numa cena que ele mesmo narra e logo trata de minimizar. A desconfiança que recai sobre Capitu pode ser lida, por essa via, como algo que diz mais sobre quem olha do que sobre quem é olhado.

“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”José Dias, em Dom Casmurro

Repare que nem a famosa descrição de Capitu é de Bentinho. É de José Dias, um agregado da casa com interesses próprios. A imagem que atravessou gerações nasce de uma testemunha parcial e é adotada pelo narrador sem exame.

Esta é uma leitura interpretativa, apoiada em conceitos da psicanálise. Personagens não são avaliados nem diagnosticados; o texto usa o romance para pensar um problema de método.

O que isso tem a ver com um laudo

Na Vara de Família, a pergunta raramente é literária, mas a estrutura se repete. Cada parte chega com sua narrativa, e cada narrativa organiza os fatos a partir de uma convicção. A tarefa técnica é não se tornar mais um Bentinho.

Isso significa ouvir todas as partes envolvidas, inclusive quem não está contando a história. Significa distinguir o que foi observado do que foi relatado, e o que foi relatado por quem. E significa registrar também os dados que não confirmam a hipótese inicial. A própria lente do avaliador entra nessa conta: avaliar alguém exige saber o que é do outro e o que é nosso.

Referências

  1. Machado de Assis. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Edição digital no portal Domínio Público.
  2. Freud, S. (1922). Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade. Em Obras completas.
  3. Caldwell, H. (1960). The Brazilian Othello of Machado de Assis. Berkeley: University of California Press. Publicado no Brasil como O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Primeiro grande estudo a questionar a confiabilidade de Bentinho como narrador.