Dom Casmurro
Dom Casmurro é contado por quem acusa. Bento Santiago, já velho e recluso, decide “atar as duas pontas da vida” e escreve a própria história. Tudo o que sabemos de Capitu passa pelo olhar dele. Ela nunca tem a palavra.
É por isso que a pergunta “Capitu traiu?” não tem resposta dentro do livro. O romance não oferece prova, oferece um narrador. E esse narrador lê cada gesto da mulher como confirmação do que já sente: um olhar no velório de Escobar vira confissão, a semelhança do filho com o amigo vira evidência.
A projeção
Na psicanálise, projeção é o mecanismo pelo qual o sujeito atribui ao outro aquilo que não consegue reconhecer em si. Freud, ao tratar do ciúme, descreve uma forma que chama de projetada: o ciumento enxerga no parceiro impulsos que são, antes, seus. Bentinho admira Sancha, a mulher do amigo, numa cena que ele mesmo narra e logo trata de minimizar. A desconfiança que recai sobre Capitu pode ser lida, por essa via, como algo que diz mais sobre quem olha do que sobre quem é olhado.
“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”José Dias, em Dom Casmurro
Repare que nem a famosa descrição de Capitu é de Bentinho. É de José Dias, um agregado da casa com interesses próprios. A imagem que atravessou gerações nasce de uma testemunha parcial e é adotada pelo narrador sem exame.
O que isso tem a ver com um laudo
Na Vara de Família, a pergunta raramente é literária, mas a estrutura se repete. Cada parte chega com sua narrativa, e cada narrativa organiza os fatos a partir de uma convicção. A tarefa técnica é não se tornar mais um Bentinho.
Isso significa ouvir todas as partes envolvidas, inclusive quem não está contando a história. Significa distinguir o que foi observado do que foi relatado, e o que foi relatado por quem. E significa registrar também os dados que não confirmam a hipótese inicial. A própria lente do avaliador entra nessa conta: avaliar alguém exige saber o que é do outro e o que é nosso.
Referências
- Machado de Assis. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Edição digital no portal Domínio Público.
- Freud, S. (1922). Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade. Em Obras completas.
- Caldwell, H. (1960). The Brazilian Othello of Machado de Assis. Berkeley: University of California Press. Publicado no Brasil como O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Primeiro grande estudo a questionar a confiabilidade de Bentinho como narrador.
